quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A vida é do jeito que tem que ser

por Adriana Patrício


É assim que essa mineira de 51 anos se refere à vida e a todos os acasos que lhe ocorreram. Neide Aparecida Borges Coutrim, nascida em Campos Altos, município localizado na região do Alto Paranaíba, é a segunda da fila entre dez irmãos, “todos palhaços, de bem com a vida”, segundo ela.

A apreciadora de pão de queijo, fazendo jus às origens, estudou até o 4º ano primário, mas sempre que possível está lendo alguma coisa “para manter a cabeça ativa”. Com 18 anos, casou-se com Walter Xavier Coutrim, e mudou-se para Americana, no estado de São Paulo, pois seu marido saiu da lavoura de café, em Campos Altos, e foi trabalhar em uma tecelagem na “princesa tecelã”, como é conhecida Americana.

Seu primeiro emprego foi como faxineira, aos 26 anos. Trabalhou em várias casas, mas há 13 anos presta serviços para a mesma família. Atualmente, Neide é o arrimo da casa; seu marido deixou de trabalhar em 1997, pois sofreu um acidente de trabalho, que lhe rendeu uma lesão na coluna, e foi aposentado por invalidez.

Sempre de bem com a vida, a mineira extrovertida levou um susto aos 32 anos de idade: descobriu que tinha um câncer de colo de útero e foi submetida a uma cirurgia. Ficou em tratamento por nove anos até ter alta, finalmente. Durante esse tempo todo, Neide disse não ter desanimado e nem tampouco reclamado da doença. “O que tenho para passar foi o que Deus deixou para mim.”

A “rainha do lar”, como se autointitula, teve seu primeiro filho aos 19 anos, Alex, e, aos 23, nasceu Rafael. Com 7 meses, o caçula teve meningite e ficou com sequelas: apresenta um atraso mental de quatro anos e pode ter crises convulsivas, caso saia do tratamento. Hoje, com 27 anos, frequenta a APAE de Americana há aproximadamente 15 anos. Nas palavras de Neide: “quando a meningite não mata, aleija”.

Seu primogênito casou-se em 2002 e já teve seu primeiro filho, Gustavo, que veio a falecer 1 ano e meio depois, com uma crise convulsiva oriunda de uma infecção não identificada. Essa é uma tristeza muito grande que ela ainda carrega, embora tente disfarçar, e seu sorriso dá lugar ao semblante sério ao falar do assunto. Neide disse que, na época, chegou a questionar a razão de uma perda tão grande. Falou, ainda, que de todas as peças que a vida lhe pregou, essa foi a mais cruel. Hoje, afirma que entendeu que ela precisaria passar por isso, que seu “anjo” cumpriu sua missão na terra. Espírita, Neide acredita que seu neto está sempre ao seu lado, dando força para suportar a saudade. Além disso, ela sempre se sente segura ao receber um abraço apertado do filho mais novo. “Quando o Gu morreu, foi o Rafa, com sua maneira de ser, que me fez ter forças. Ele me abraçava tão forte, parecia querer tirar de dentro de mim aquela angústia.”

Em 2006, a alegria voltou a fazer parte da família Coutrim. Nasceu Lucas, o segundo filho de Alex e, em 2007, Geovana veio para encher a casa de mais felicidade. Neide tem completa adoração pelos netos e sempre leva uma foto deles em sua carteira.

A mulher miúda, de cabelos pretos naturais, abre um sorriso ao falar de seu gosto pela música, “adoro o Michael Jackson”, e pela dança, “se eu pudesse, saía dançando por aí o tempo todo”. Quando está trabalhando, procura deixar um rádio por perto e sempre encontra tempo para assistir a programas ou filmes do Didi Mocó, “ele é um palhaço, sempre me faz rir”! Vaidosa, mantém as unhas dos pés esmaltadas e corta os cabelos regularmente.

Em um tom divertido, Neide resume sua vida em uma única palavra: “corrida”. “O que tenho para passar foi o que Deus deixou para mim, mas ele sempre me dá força para seguir em frente. Eu vejo a vida do jeito que tem que ser. Tudo o que eu passei, tudo o que acontece, tem um significado. Tem dia que eu acho que vou desmoronar, mas eu sempre levanto, pois eu tenho que cuidar do Rafa. Se não fosse ele, eu não teria suportado a perda do meu neto. Não sei o que seria de mim sem o abraço apertado que ele me dá todos os dias quando chego do trabalho.”

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